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Colunista Murilo Badaró MAIS MATÉRIAS  

O perigo da inflação já ronda o Brasil e pode detonar o futuro promissor.

Winston Churchill dizia que quando mais se recua na observação do passado, mais se avança na visão do futuro. Ele estava corretíssimo. A crise econômica de 2008 foi debelada pela ação firme que surgiu a partir do aprendizado com a crise de 1929. Um fantasma do passado ronda alguns países, principalmente os ditos emergentes.
O mundo viveu momentos inflacionários terríveis que hoje estão provados e com asserção de que não foram provocados pelas guerras, mas ao contrário, causaram guerras. A República de Weimar, Alemanha após a primeira guerra, é o caso mais notório. Uma combinação de impostos insuficientes e gastos excessivos criaram déficits nos idos de 1929 e desaguou na terrível e conhecida hiperinflação que teve pico de 182 bilhões por cento, isso mesmo. Na Hungria a inflação chegou a 4,19 quintilhões por cento em 1946, nem dá para imaginar este número.
A combinação da depreciação do marco alemão na ilusão de pagar as indenizações da guerra elevou as importações, aumentaram o consumo e os preços saíram do controle. Após a festa na floresta da explosão de consumo e da produção, vem a escassez e o desemprego, a quebra da confiança, calotes e uma espiral de problemas, sociais e políticos.
Como diz o historiador Niall Ferguson, se as hiperinflações fossem explicadas pelas indenizações de guerra era fenômeno fácil de ser entendido.
Milton Friedman diz que inflação é fenômeno monetário, mas hiperinflação é fenômeno político, e sempre por má gestão, tendo como protagonistas principais governos populistas e irresponsáveis.
Mais um exemplo, Argentina, em 1913, um dos dez países mais ricos do mundo. A Argentina chegou a crescer mais que Alemanha e Estados Unidos. Capital estrangeiro jorrava como as águas do Rio De La Plata, o futuro era promissor e positivo. Entretanto, a história mostra se não fosse em 1946, com a assunção de Juan Perón ao poder, a Argentina poderia ser um dos grandes e prósperos países mundiais, comparáveis aos Estados Unidos talvez. Populista e irresponsável, gastos públicos sem controles, calotes nas dívidas e desmandos que levaram a golpes diversos fizeram a Argentina penar até os dias atuais, com inflações e crises monetárias gravíssimas, planos de governos fracassados e até uma guerra. A inflação foi o seu maior flagelo nestes anos todos. Na volta de Perón em 1973 existia uma espiral inflacionária global e todos os países pagaram, ele acaba provando do veneno que inaugurou na década de 40.
Considerando que inflação é causada principalmente por déficit público, má gestão aumento de consumo e depreciação monetária, vamos avaliar um pouco o caso do Brasil atual.
Enfrentamos a crise inflacionária causada pelo choque do petróleo na década de 70, mas ofuscada pelo milagre econômico, só voltaríamos a percebê-la nos anos 80, inclusive em 1989 experimentamos 80% ao mês de inflação. Esta década penalizou diversas gerações.
Ainda em escala mundial a inflação taxou em diversos países todas as classes sociais, Estados Unidos, Inglaterra e todo primeiro mundo experimentaram os dois terríveis dígitos de um indicador de inflação. O pior imposto que existe é o inflacionário. Na confusão e luta por interesses próprios, classes de trabalhadores, governo, funcionalismo público e entidades de classe criam um clima de idas e vindas que acabam beneficiando alguns, mas que acaba sendo ilusão pelos problemas futuros que as mazelas e confusão inflacionária causam a sociedade.
No Brasil, a Lei de Responsabilidade Fiscal (lei complementar nº 101, de 4 de maio de 2000), estabeleceu um conjunto de regras de controle sobre as finanças públicas. Isso foi um tremendo avanço, freio nos governantes irresponsáveis. Mesmo passando despercebido pela grande maioria, podemos inferir que foi um dos grandes avanços conseguidos na mudança de comportamento gerencial das contas públicas junto com a estabilização da moeda.
O Brasil viveu no século XXI um momento impar, de prosperidade e estabilidade. O governo do PT teve responsabilidade em diversas ações de gestão pública e surfando nas ondas globais de riqueza passamos incólumes pela crise de 2008 e somos a “ bola da vez” com a Copa de 2014, Olimpíadas de 2016 e o tri campeonato em “investment grade” conseguido nas três melhores instituições avaliadoras. A euforia é total, com razão.
Porém, um fato tira o sono de economistas sérios e preocupados com o futuro tão promissor deste país. O descontrole de gastos públicos, principalmente nas contas correntes.
Luz amarela acessa: O governo central registrou déficit primário de 7,632 bilhões de reais em setembro, o pior resultado para o mês desde o início da série, em 1997. Se ao menos fosse a elevação dos investimentos, mas não é.
Vemos pelos problemas ainda recorrentes na saúde, educação e infra-estrutura, principalmente estradas e portos, que o gasto é despesa pura, sem o devido retorno a todos os contribuintes, mas privilegiando algumas categorias.
A herança de Lula pode ir pelo espaço. Ele tem altos índices de popularidade, o Brasil perspectivas positivas, seu legado ainda é protegido por algumas medidas que mesmo questionáveis, traz algum resultado social.
O cuidado deve ser redobrado na gestão das finanças, este tem sido o seu calcanhar de Aquiles.
As taxas de juros em declínio, a apreciação do real, um aumento de consumo das famílias e o aumento constante dos gastos públicos nas despesas correntes podem ser combustível para a chama inflacionária que começa se encetar.
Se o monstro inflacionário voltar, deverá ser diferente, mas destruirá o sonho deste promissor futuro e causará danos que penalizará muitas gerações futuras.
Sempre olhei com otimismo a nova mudança da ordem econômica, as novas premissas, o aprendizado com problemas passados e as ferramentas de gestão atuais jamais nos deixaram voltar a viver os perigos inflacionários como no passado.
Uma coisa deve ficar clara, não devem se repetir as mesmas conseqüências e efeitos dos percalços inflacionários decorridos, mas as causas ainda podem ser as mesmas, os efeitos podem vir de forma modificada, mas ainda assim maléficos e causadores de problemas políticos e sociais.
A luz amarela está acessa há algum tempo, a euforia é saudável, mas a responsabilidade e competência da potencial prosperidade são mais importantes que o sonho a ser vivido. Sempre digo, não podemos confundir o estado brasileiro com governo do Brasil, são coisas distintas e não podem ser misturadas.

Murilo Prado Badaró - Empresário e Economista-mpbadaro@terra. com.br

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