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INFLAÇÃO.  PORQUE OS MONETARISTAS  ESCONDEM A VERDADE
                                                                                                                               
                    O que mais se vê e mais se houve nestes tempos de aceleração inflacionária, tanto de porta vozes do Banco Central como de  analistas ligados a atividades financeiras, é que o Governo precisa conter suas despesas, aumentando o chamado Superávit Primário, e as empresas devem refrear os aumentos de salários.  Subjacente a tais posturas estaria a idéia de que se aumentam os preços é porque existe excesso de demanda  - o Governo e as famílias estariam  gastando muito, consumindo acima da capacidade de produção do pais, e assim agravando a inflação.  Raciocínio de uma extrema pobreza de lógica – num país onde a economia só avança quando ganhos momentâneos com a especulação financeira esquentam a demanda de bens de luxo.  
                        Para que os menos versados em economia possam avaliar até onde tais opiniões guardam a desejável neutralidade cientifica,  ou se apenas refletem interesses localizados,  é essencial que se coloque desde já algumas questões objetivas:   
a)  a inflação não surge do abstrato – e, afora a hipótese de quebra de safras, não existe inflação de proveta.  Os aumentos de preços estão invariavelmente associados ao fato de alguém, em etapa anterior, ter aumentado sua participação na renda gerada, através de aumento de juros, aumento de lucros, aumento de impostos, desvalorização real da moeda frente outras moedas.  Ou seja, a inflação é uma etapa natural, irremovível, derivada de um processo prévio de fecundação
b) a renda gerada no país é finita, estando associada ao volume  “físico” de bens e serviços produzidos. Assim, quando alguém consegue aumentar sua participação no bolo, inevitavelmente outro grupo enfrenta situação diversa, com redução de sua parcela na renda global.   É exatamente esse papel redistributivo que a inflação executa.  Os trabalhadores perdem rendas sem perceber a causa verdadeira do seu empobrecimento
c) as elites devem ter noção precisa do mecanismo antitrabalho, pois sabem que governo, empresas e rentistas tem meios de se defender da inflação:  as receitas do governo são ad-valorem, uma percentagem sobre os preços, o que lhe garante correção monetária automática (sobem os preços, sobem as receitas de impostos)   as empresas repassam de imediato para os preços qualquer aumento de custos   os rentistas se garantem porque quando aumenta a inflação aumentam os juros.  Não existem, portanto, nem mecanismos antigoverno, nem anticapital – só mecanismos anti-salário
d) as rendas do trabalho (tanto quanto as rendas de autônomos pouco qualificados, pequenos empresários, aposentados, etc.) funcionam, portanto, como variável de ajuste – perdendo poder de compra no interregno entre dois reajustes salariais   se os trabalhadores pudessem reagir de imediato aos  aumentos de preços com pronta correção dos salários, a ciranda aumento de preços/aumento de salários/aumento de custos/aumento de preços... rapidamente levaria a inflação ao infinito e a economia ao caos  
e) quando as taxas de inflação se elevam estão, portanto, apenas desempenhando um papel – encontrar os perdedores de rendas que já engordam as fatias do bolo dos felizes ganhadores.
                      O que as elites procuram fazer crer é que são os próprios trabalhadores os responsáveis pela inflação.    Uma falácia com a qual se busca anuviar a realidade, para que os assalariados possam engolir impassíveis o remédio amargo para o retorno à estabilização de preços.  Sim, porque só ha estabilização de preços de houver perdedores definitivos de rendas reais:  alguém que sofra aumentos de custos mas não faça o repasse para os preços, preenchendo o papel de  “perdedor definitivo de rendas reais”.      
                      Definido o perdedor  - para o que basta condenar as correções salariais, enquanto  sob pomposos nomes se mantém as correções de preços, de impostos, de juros  - o bolo de renda pós-estabilização fica redividido em relação ao início do processo:  agora uma fatia maior está com  o núcleo de rendas flexíveis -  governo,   empresas, rentistas e, logicamente, uma  fatia menor para os que vivem do trabalho – os detentores de rendas contratuais -  a parte mais frágil no jogo do mercado.
                      No caso do atual surto inflacionário brasileiro – contido em parte pelo dólar barato e pelo congelamento dos preços da gasolina – as  pressões advêm, na parcela que tem origem interna,  dos aumentos de impostos, aumento de juros, e aumento dos lucros das grandes empresas.  E, no que tem origem externa, os aumentos de preços de commodities agrícolas e minerais no comercio internacional, decorrente do  crescimento explosivo da economia chinesa, e do efeito locomotiva da China sobre as demais economias.    Os preços das importações ficam mais caros, a inflação se eleva internamente, os que vivem do trabalho empobrecem.  Os importadores afetados pelos aumentos de preços repassam os aumentos de custos para os preços. Os exportadores de setores beneficiados pelos aumentos de preços externos  privatizam os ganhos.
                      Preocupante é que, quando o Banco Central vem a público justificar aumento dos juros para controle da inflação, omite o essencial - o fato de que isso provoca novo aumento de custos nas empresas, novos aumentos de preços, acelerando ainda mais a inflação – é como combater o fogo com gasolina   fazendo crescer  ainda mais a fatia de renda do sistema financeiro e rentistas.  Inevitável que em contrapartida as famílias tenham perdas adicionais de rendas, face ao  “esforço para esmagar o inimigo de todos, a inflação”  – como os laranjas do mercado apregoam entre risos contidos.
                      A segunda parte dos segredos que a aparente racionalidade cientifica nunca confessa, é que sucessivos aumentos de juros provocam também sucessivos  movimentos de concentração da renda   e ao reduzir a renda das famílias, e em conseqüência o volume de consumo, o que realmente pretendem é conter o nível de atividade da economia   para que, com menos renda e menos empregos, os trabalhadores fiquem enfraquecidos,  aceitando, por falta de alternativas, a eliminação das leis salariais e repetidos reajustes abaixo da inflação, vendo, impotentes seu poder de compra despencar impiedosamente.
                      Só se retorna à estabilidade de preços se houver perdedores definitivos de rendas reais, isso é inegável.  Ou se, alternativamente, aqueles que sem sutilezas foram aumentando sua fatia no bolo da renda se vejam  forçados a fazer o caminho inverso.  Menos impostos, menos juros, taxas de lucros civilizadas. 
                      Não se conhece alternativas mais justas, mais humanas, e mais capitalistas.   Afinal a economia só pode crescer se as empresas investirem no aumento da capacidade produtiva e o governo na infra-estrutura econômica.  Mas as empresas só aumentam a produção se houver aumento na procura.  E o principal componente da demanda é o setor famílias.  Exatamente aquele massacrado sem piedade desde o advento do Plano Real.  O que faz suspeitar que diferentes governos projetam transformar o Brasil num imenso país de “bolsistas”, no qual a cesta básica seria o ator principal.

Derci o Garcia Munhoz -  bibliografia@terra.com.br

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